sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

As moças de 89

Outro texto antigo meu, de abril de 2004:


O ano de 1989 marcou, irremediavelmente, o fim de todas as nossas certezas. O mundo bipolar, dividido entre os bonzinhos do ocidente (nem tão bonzinhos assim, como sabemos...) e os mauzinhos de Moscou começou a ruir quando a Hungria abriu sua fronteira com a Áustria, rompendo o dique da cortina de ferro e dando origem a um dos maiores movimentos migratórios já vistos após a Segunda Guerra Mundial (impossível não lembrar, com um arrepio, dos trens da liberdade...). A música, como não poderia deixar de ser, reflete este estado de espírito. Bandas darks e góticas como The Cure, The Mission, Type O Negative e tantas outras dominam o cenário.

No Brasil, Marina - só se tornaria Marina Lima anos mais tarde - cantava "...meu amor não vai haver tristeza, nada além de um fim de tarde a mais...", Sarney e seu bigode governam o país e a inflação de 80% ao mês dá origem a um certo caçador de marajás, vindo lá das Alagoas...

De repente, não mais que de repente, surge Madonna, com os peitos pontudos de Gaultier. "Ouando você chama meu nome, é como uma pequena prece, canta ela na música Like a prayer. No clipe, a imagem de um santo negro ganha vida e tasca um belo beijo na cantora, enfurecendo conservadores, monges, clérigos, a Igreja e, certamente, a Liga das Senhoras Católicas de Santana (ponto para Madonna!!!).

Santidade e pecado; erotismo e fé. É exatamente esta a inspiração das moças de 89. Genuinamente belas, pois nesta época o silicone era utilizado, com conseqüências geralmente nefastas, apenas por travestis. Nascidas logo após à Redentora (também conhecida como o golpe de 1964...), elas sabiam exatamente o que queriam. Tinham postura, atitude. Trouxeram para as ruas a ousadia antes vista somente nas praias, deliciosamente misturando sutiãs à mostra e blusas transparentes com terços e crucifixos. Se por um lado buscavam maior espaço e reconhecimento social, por outro desejavam relações mais estáveis, homens mais sensíveis e o fim do ranço machista que ainda existia.

Corte rápido. 15 anos se passaram e já estamos no outono de 2004. O mundo tornou-se multipolar e muito mais perigoso. Os mauzinhos, nestes tempos, utilizam o terrorismo como tática e o Corão como ideologia ou ocupam a presidência das terras do Tio Sam. As mocinhas de hoje, filhas da "geração saúde", continuam belas, porém menos genuínas. Peitinhos turbinados, bundinhas - meticulosamente construídas nas academias de ginástica - empinadas e, com raras e honrosas exceções, nada ou quase nada na cabeça. Dublês de corpo.

Se as moças de 89 pecavam pelo excesso de "papo-cabeça", a indissoluta vontade de a tudo discutir, questionar, entender, as de 2004 pecam pelo alheiamento. A tudo temem, pois tudo lhes é estranho. Não sabem bem o que querem ou se querem alguma coisa. A vida, na maior parte dos casos, constitui-se de um tedioso interregno entre as baladas, onde sacolejam ao som de música ruim (a maioria acredita que a música só começou a partir do nirvana...) e a quilômetros de distância de seus parceiros. Namoram seus correspondentes do sexo masculinos, os machinhos, menininhos metidos à besta, cujo maior objeto de desejo é um carrinho 1.0 ornado com neons de gosto duvidoso e que as tratam como mero artigo de decoração.

E são eles, os machinhos, que proíbem suas namoradas de usarem certos tipos de roupas, controlam suas amizades, dizem o que podem ou não fazer. E as mocinhas de 2004 aceitam tais imposições, absurdas em todos os sentidos, com a placidez das convertidas, em claro retrocesso às conquistas da geração anterior. Essas moças têm muito o que aprender...

Ah, e se alguma moça de 89 estiver dando sopa por aí, dê um toque. Estou facinho, facinho.



A diferença é que, hoje em dia, eu sou um rapaz casado, cônscio de meus deveres e responsabilidades...rs!!!!

Um comentário:

Guerreiro disse...

Vejo que têm um bom trabalho por aqui ;) discute-se tudo menos o bacharel na faculdade de engenharia